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A ROSA PÚRPURA DO CAIRO






Sinopse: Durante a Grande Depressão, a garçonete Cecilia (Mia Farrow), casada com homem bêbado e vagabundo, faz do cinema sua válvula de escape da sua dura vida real. Após a surpreendente fuga da tela de cinema do personagem Tom Baxter (Jeff Daniels) , do filme A Rosa Púrpura do Cairo, Cecilia terá a oportunidade de viver o grande romance de seus sonhos e a obrigação de escolher entre a perfeição da ficção e as possibilidades da realidade.

Nota do Razão de Aspecto:


Ficha Técnica

Gênero: Drama
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Albert S. Bennett, Alexander Cohen, Andrew Murphy, Annie Joe Edwards, Benjamin Rayson, Camille Saviola, Crystal Field, Danny Aiello, David Kieserman, David Tice, David Weber, Deborah Rush, Dianne Wiest, Don Quigley, Drinda Lalumia, Ebb Miller, Edward Herrmann, Edwin Bordo, Elaine Grollman, Eugene J. Anthony, George Hamlin, George J. Manos, George Martin, Glenne Headly, Gretchen MacLane, Helen Hanft, Helen Miller, Irving Metzman, James Lynch, Jean Shevlin, Jeff Daniels, John Rothman, John Wood, Joseph G. Graham, Juliana Donald, Karen Akers, Ken Chapin, Lela Ivey, Leo Postrel, Loretta Tupper, Margaret Thompson, Mark Hammond, Martha Sherrill, Mary Hedahl, Maurice Brenner, Mia Farrow, Michael Tucker, Milo O'Shea, Milton Seaman, Mimi Weddell, Paul Herman, Peter Castellotti, Peter McRobbie, Peter von Berg, Raymond Serra, Rick Petrucelli, Robert Trebor, Stephanie Farrow, Sydney A. Blake, Tom Degidon, Tom Kubiak, Van Johnson, Victoria Zussin, Wade Barnes, Willie Tjan, Zoe Caldwell.
Produção: Robert Greenhut
Fotografia: Gordon Willis
Trilha Sonora: Dick Hyman
Duração: 82 min.
Ano: 1985
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estúdio: Orion Pictures Corporation

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*Contém spoilers (embora o filme seja de 1985).


O diálogo entre o criador, Gil Shepherd, e a criatura, Tom Baxter, na disputa pelo amor de Cecilia, sintetiza o dilema humano que fundamenta o roteiro de A Rosa Púrpura do Cairo:  as consequências da escolha entre o mundo imaginário e o mundo real.

Embora A Rosa Púrpura do Cairo seja recorrentemente classificado como comédia, preferi reclassificá-lo como drama. O dilema da protagonista e a consequência de suas escolhas não podem ser tratados com comicidade, ainda que o diretor os tenha tratado com a leveza peculiar de muitos de seus roteiros, a exemplo de produções anteriores, como Manhattan e Annie Hall, e de produções mais recentes, como Meia Noite em Paris e Vicky, Cristina, Barcelona.  A Rosa Púrpura do Cairo não é uma comédia romântica, mas, sim, um drama filosófico de amor, como se demonstra no diálogo de Tom Baxter no Bordel, quando discute com as prostitutas as razões de não poder aceitar sua oferta de uma festa gratuita: estar apaixonado. Por outro lado, o drama não nos impede de rirmos, ainda que nervosamente, daquilo que identificamos nos diálogos como nossos pensamentos (não) ditos.

A personagem de Mia Farrow é sofrida, ingênua, romântica, idealista e sonhadora. Assim, torna-se fácil para o espectador criar empatia por Cecilia. Quem nunca imaginou escapar da realidade, dos problemas e da rotina para viver a história dos seus sonhos? Colocamo-nos na posição de Cecilia e passamos a viver sua história como se fôssemos personagens do filme, de forma análoga à que Tom Baxter foge da tela e passa a viver no mundo real em busca do amor verdadeiro. 

Quando teve a oportunidade de viver a história de amor de seus sonhos, Cecilia também precisou enfrentar as limitações da realidade. De um lado, um marido bêbado e vagabundo que a maltratava, mas a quem ela respeitava; do outro lado, um homem ficcional com todas a características do amante perfeito, louco de amor por Cecília. Com o aparecimento de Gil Shepherd, o ator que deu vida a Tom Baxter, formou-se o triângulo que levou os personagens ao sentimentalmente trágico desfecho.

Ao ter a possibilidade de viver a perfeição de seus sonhos, Cecilia preferiu optar entre os dois homens reais, o ator Gil Shepherd e marido Monk, em vez de mudar-se para o mundo ficcional com Tom Baxter e viver feliz para sempre. Cecilia escolheu a esperança de viver a história possível, ao acreditar nas palavras de amor de Shepherd, e abandonar a sua triste vida ao lado de Monk. Tom Baxter, um personagem puro de sentimentos, retornou devastado para o mundo da ficção.

Quando descobrimos que as palavras de amor de Shepherd não passavam de mera interpretação para convencer Tom Baxter a retornar a mundo da ficção e salvar a carreira do seu criador, sentimo-nos arrasados com o abandono de Cecilia e com seu retorno obrigatório à miséria e à infelicidade. 

Em A Rosa Púrpura do Cairo, a pureza de sentimentos de personagens vivendo uma história mágica foi envenenada pelo mínimo contato com a realidade e, consequentemente, com a mentira, a manipulação, e o egoísmo. Na cena final, ao vermos Cecilia solitária, mais uma vez, na sala de cinema, para escapar da destruição causada pelas suas escolhas, entendemos o quanto é inescapável a necessidade do ser humano de sonhar.

No século XXI, as relações imaginárias do filme de Woody Allen reproduzem-se em outros ambientes. Se, em a A Rosa Púrpura do Cairo, a história mágica torna-se possível somente com a fuga de um personagem do mundo da ficção para o mundo real, há algumas décadas, nós, seres humanos normais, somos os personagens de histórias mágicas e imaginárias criadas e dirigidas por nós mesmos na rede mundial de computadores. Na rede, temos a fuga correspondente às de Cecilia e de Baxter. Quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra.

Paradoxalmente, somos, ao mesmo tempo, Tom Baxter e Gil Shepherd, ou somos Cecilia, ao fazermos a escolha errada. Infelizmente, Woody Allen talvez não concordasse comigo. Possivelmente, o diretor jamais realizará um projeto relacionado às relações no mundo virtual, ainda que configurem cenário propício e totalmente adequado à visão de mundo do diretor sobre as relações humanas. 

Cabe a nós mesmos aprendermos com A Rosa Púrpura do Cairo que a magia das relações imaginárias no mundo virtual é facilmente destruída pela opressão da realidade. Sempre que buscamos viver sentimentos puros, somos jogados no devastado mundo cinzento dos corações partidos.





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