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Meus melhores filmes

Com o devido atraso provocado por alguns contratempos pessoais e pela Copa do Mundo, volto ao Razão de Aspecto. Só mesmo o cinema (e a literatura) para nos possibilitar um escape momentâneo dos dez-a-um… digo, da realidade, para mundos mais interessantes (alias, coisa que não fiz durante esta Copa foi assistir um jogo no cinema… deve ser uma experiência particularmente deliciosa;  quem sabe daqui a quatro anos, em um torneio mais distante geograficamente, o rito fique ainda mais mágico…).

Falava eu das identificações secundárias, e, como prometido, apresento uma lista dos filmes que mais me marcaram. Não se tratam, nem de longe, dos filmes que considero melhores, e sim daqueles com quem estabeleci, por diferentes razões em diferentes níveis, uma conexão íntima.

Assim, por exemplo, o fato de ser um escritor – amador ou potencial, que seja – faz com que filmes que tenham escritores (ou a relação do criador com a escrita criada) como protagonistas, tenham grandes chances de me atrair, mesmo que não sejam tão geniais em algumas camadas estéticas. O mesmo vale para filmes passados no Reino Unido:  tendo lá morado, e consumido maciçamente a arte britânica e irlandesa ao longo da vida, é mais fácil Neil Jordan me seduzir do que, por exemplo, o norte-americanismo íntimo dos irmãos Cohen. Por ser diplomata e ter morado no exterior, filmes de espionagem tem trânsito fácil: um homem, com uma missão, em uma terra diferente da sua:  a conexão é imediata (ainda que eu fique feliz em utilizar a HUMINT apenas dentro da lei, e não ter de sobreviver a perseguições de carro e vilões megalômanos – se bem que…)

Repare que essas qualidades estão na relação pessoal que temos com as obras, e não em alguma característica intrínseca da criação. É pelo respeito a essas conexões subjetivas que costumamos dizer que “gosto não se discute”. Gosto não, mas estética sim.

A elaboração de listas é sempre difícil – claro: como diria Umberto Eco, uma lista é uma tentativa de controle do mundo - e acaba resultando em um produto final injusto. Haverá várias películas que ficarão de fora por esquecimento, e outras que foram excluídas para a relação final não ficasse tão extensa.

Dito isso, e para deixar transparecer alguns viezes de análises futuras, meus filmes favoritos (sem ordem relevante) são…

Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989): ao encerrar-se a sessão de cinema, eu chorava copiosamente, sem entender exatamente o porquê. Aos 15 anos, creio que eu já intuia o embate entre um mundo que conspira para matar a poesia, e a ânsia pela arte, pela vida, por “ir à floresta porque se quer viver intensamente”. Robin Williams antes de virar uma caricatura de si próprio. Uma das grandes injustiças da Academia, que preferiu premiar o apenas bom “Conduzindo Miss Daisy”. Menos de um ano depois eu já havia coorganizado um grupo de poetas, e já sabia subir na mesa para ter um olhar diferente do óbvio. O problema de abrir os olhos é não saber fechá-los depois.

Excalibur (1981): vale a menção mais do que honrosa de “A espada era a lei” (The sword in the stone, 1963), que me apresentou, mais jovem do que deveria, à lenda do Rei Arthur e seus cavaleiros. John Boorman conseguiu, em pouco mais de duas horas, fazer o filme definitive (até o momento, ao menos) sobre o ciclo de nascimento, vida, decadencia e morte (não apenas do protagonista, mas da própria ideia da Távola Redonda, um projeto de mundo com menos caos e mais prosperidade, de honra condenada pela imperfeição humana). Mais de três décadas depois e lançado, o filme guarda, a cada audiência, a descoberta de novos simbolismos. Um filme para quem gosta de mitologia e de semiótica. Como curiosidade, vale conferir Gabriel Byrne, Patrick Stewart, Liam Neeson e Helen Mirren anos antes de se tornarem celebridades. No ciclo arthuriano, o único filme que chega perto da genialidade de Excalibur é “Monty Python em busca do Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, 1975).

Moulin Rouge: o amor em vermelho (Moulin Rouge!, 2001): musicais são filmes que costumam despertar reações extremadas. Quem não gosta, tende a não gostar mesmo. Como eu não tenho esse problema, não tive como não me apaixonar – a ponto de assistir 12(!!!) vezes no cinema – a essa aula de pós-modernismo, na releitura A dama das camellias/La traviatta. Vejamos: no fim do século XIX, jovem escritor se apaixona por ruiva-musa, em um amor clandestino, impossível, que desafia as regras e é fadado a acabar em tragédia. Difícil aproximar-se mais da minha paisagem mental. Isso tudo ao som de pop e rock do fim do século XX. Um filme que abre com uma canção de David Bowie, e passa por Madonna e Queen. Um filme que transforma Roxanne em tango. No primeiro terço do filme, quando estão tocando, ao mesmo tempo, em um arranjo genial, soul da década de 1970, can can e Nirvana(!!!!), eu só não levantei e bati palma do cinema porque minha fleugma me impediu.

Fim de Caso (The end of the affair, 1999):  se "Moulin Rouge" começa com “this story is about love”, "Fim de Caso" tem como primeira frase “this is a diary of hate”. E ambos foram parar entre os meus favoritos, go figure.  Embora de estilos e resultados bem diferentes, também temos um escritor, uma musa ruiva e uma paixão proibida. Desde “O Paciente Inglês”, Ralph Fiennes é alguém que eu quero ser quando crescer. O fato de ser baseado – e extremamente fiel – em um livro de Graham Greene, e, de ter, como de costume, um forte subtexto de discussão sobre religiosidade e destino, só ajuda. Eu já pensei em ter uma banda chamada Bendrix…

Highlander, o guerreiro imortal (Highlander, 1986): é claro que “Highlander” tem qualidades que o diferenciam um pouco da média dos filmes de ação da década de 1980: pra ficar apenas em duas, a trilha sonora do Queen é uma obra prima – e se você não se emociona até hoje ao ouvir ”Who wants to live forever”, você é um robô -, e Sean Connery em toda sua carismática canastrice interpretando um – lembrem-se! – espanhol imortal. Mas nada disso, ou as estonteantes paisagens escocesas às quais fui apresentado pela primeira vez – garantiu sua vaga nos meus filmes mais queridos. A identificação com a mitologia dos imortais vem da nostalgia… Séculos vivendo histórias, amores, conquistas e perdas, que assombram e assombrarão o presente e o futuro. O doloroso embate entre querer isolar-se, evitar sentir e interagir, para escapar da dor da perenidade, e a necessidade de seguir vivendo.  Imortal eu não sou… já as dores…



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