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O HOMEM DAS MULTIDÕES




Gênero: Drama
Direção: Cao Guimarães, Marcelo Gomes
Elenco: Jean-Claude Bernardet, Paulo André, Silvia Lourenço
Produção: Beto Magalhães, João Vieira Jr
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montador: Cao Guimarães, Marcelo Gomes
Trilha Sonora: O Grivo
Duração: 95 min.
Ano: 2013
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 31/07/2014 (Brasil)
Estúdio: Cinco em Ponto / Lucas Sander / REC Produtores Associados
Classificação: 14 anos

Sinopse: Juvenal é um maquinista de metrô em Belo Horizonte, Margô controla o fluxo dos trens. Ambos vivem em um estado de profunda solidão até que seus destinos se cruzam, alterando a suas rotinas e afetando sua forma de ver o mundo.




Nota do Razão de Aspecto:



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Desde o seu lançamento, O Homem das Multidões despertou minha curiosidade. Afinal de contas, não é frequente encontrarmos produções cinematográficas brasileiras inspiradas, ainda que livremente, na obra de escritores do calibre de Edgar Allan Poe. Felizmente, o filme não decepciona e capta o estranhamento causado pelo conto de Poe. Se, no conto, acompanhamos o narrador que segue e observa o Homem da Multidão, no filme, o espectador substitui o narrador do conto e acompanha o Homem das Multidões pela ótica das lentes dirigidas por Cao Guimarães e Marcelo Gomes.

O Homem das Multidões é concretização do princípio de que um bom filme se baseia em bom roteiro, boa direção e boas interpretações, independentemente de orçamento. Com uma estrutura narrativa simples e eficiente, consegue transmitir a solidão e o desespero de Juvenal, maquinista do metrô de Belo Horizonte,  e o de Margô, controladora do metrô. Ele luta contra a solidão caminhando entre multidões, sempre à procura de companhia, demonstrando pânico e desorientação quando as ruas esvaziam. Ela luta contra a solidão substituindo a vida real pela virtual, porém tem pânico de multidões. Os destinos de ambos se cruzam, desestabilizando a rotina e os sentimentos dos personagens.

O Homem das Multidões  chama a atenção pelos diálogos concisos e econômicos, o que poderia tornar a narrativa entediante, mas, felizmente, configura-se como um grande acerto do roteiro. Dessa forma, a história passa a ser contada muito mais pelas imagens do que pelas palavras. Três cenas são emblemáticas para que o espectador entenda os sentimentos dos personagens e passe a se importar com os seus destinos: quando Juvenal entra em um ônibus quase totalmente vazio e opta por ocupar o lugar ao lado do único passageiro em busca de calor humano, quando Margô decide não entrar no vagão do metrô em função de seu pânico de multidões e, principalmente, quando ambos os personagens se encontram no apartamento de Juvenal diante de um silêncio constrangedor que nos transmite muito mais do que as poucas frases protocolares trocadas entre eles.

As cenas de Juvenal, muito bem interpretado por Paulo André, nas ruas de Belo Horizonte, em busca de ruas cheias, bares abertos, e desorientado com o esvaziamento das ruas e o fechamento dos bares à noite merecem atenção, por serem as que mais bem descrevem a angústia do "homem das multidões" em plano sequência, especialmente quando contrastadas com a cenas do apartamento de Juvenal, sempre com a câmera fixa, o que reforça o sentimento de tédio e de solidão do personagem. 

O Homem das Multidões faz um retrato profundo da solidão no mundo urbano com simplicidade e realismo, ao explorar o cruzamento entre a solidão da vida real de Juvenal e as relações virtuais de Margô. De forma inversa a Theodore Tombley, de Ela, a solidão dos personagens não resulta de uma decepção amorosa nem da busca de um amor redentor. O sentimento de solidão é o mesmo, mas os caminhos para a redenção são diferentes. Se, em Ela, Tombley busca um amor e encontra algo que parece perfeito, em O Homem das Multidões, o amor é uma consequência natural da aproximação entre duas pessoas com problemas diferentes, porém da mesma natureza, que se complementam harmonicamente.

A solidão é um dilema que aflige a todos os seres humanos em algum momento de suas vidas. O Homem das Multidões nos mostra um caminho de saída e nos prova que, no cinema, as imagens valem mais do que as palavras, e, na vida, os sentimentos valem mais do que os desejos racionais - tudo conduzido pela direção segura, o roteiro bem estruturado e as interpretações inspiradas de Paulo André e Sílvia Lourenço.





 

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