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ERA DOS GIGANTES





Gênero: Documentário
Direção: Maurício Costa
Roteiro: Maurício Costa e Anttonio Amoedo
Entrevistados: Celso Amorim, Cristovam Buarque, Luiz Felipe Lampreia,  Mino Carta, Rubens Barbosa, Samuel Pinheiro Guimaraes, Sergio Leo, Matias Spektor, Oliver Stuenkel  
Produção executo: Cecília Umetsu
Fotografia: Rodrigo Campos
Montador:  Ícaro Sousa
Design e animações: Pedro Neto
Duração: 2016
Ano:  121 minutos
País: Brasil
Cor: Colorido

Sinopse: Documentário que, por meio de entrevistas com diplomatas, políticos, jornalistas e acadêmicos, discute os principais fatos e tendências da política externa nas duas gestões do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).




Nota do Razão de Aspecto:


Embora nem sempre seja tão popular entre o público médio, o documentário é um gênero poderoso e variado, e preenche lacunas temáticas que a ficção talvez não possa, não consiga ou não se interesse em retratar. Trata-se de um gênero sem estrutura, abordagem ou linguagem pré-definida, que tem como único balizador o compromisso de buscar tratar um ou mais aspectos da realidade. O Brasil teve e tem grandes documentaristas, como Eduardo Coutinho, João Batista de Andrade, Vladimir Carvalho, João Moreira Salles, Marcelo Masagão e Jorge Furtado.

Em seu longa de estreia, Maurício Costa dirige e produz "Era dos Gigantes", que trata da política externa durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República. Diplomata, o realizador optou por um tema sobre o qual muitos opinam, mas poucos conhecem a lógica e os bastidores da diplomacia. Costa bancou todos os custos do projeto – pouco menos de 50 mil reais -, sem contar com apoio de leis de incentivo ou de patrocinadores privados.


De custo extremamente baixo, mesmo para padrões brasileiros, "Era dos Gigantes" (título que faz referência a um livro do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário-Geral do Itamaraty no período tratado) ganha grande importância pela escolha dos entrevistados: além do Embaixador Pinheiro Guimaraes, Costa colhe depoimentos de ex-Chanceleres (Celso Amorim, Ministro de Lula durante todo seu Governo, e Luiz Felipe Lampreia, que ficou seis cargo durante a gestão FHC, e falecido em 2016); de um Embaixador de renome (Rubens Barbosa, ex-Embaixador do Brasil em Londres e Washington); do Senador Cristovam Buarque; e de jornalistas e pensadores referenciais na área da política externa (Sergio Leo - jornalista e colunista do Valor Econômico por 20 anos, atualmente na FEBRABAN; Matias Spektor -  professor da FGV e colunista do Jornal Folha de São Paulo; Oliver Stuenkel - professor da FGV e colunista do Estadão; e Mino Carta - Editor Chefe da revista Carta Capital).

A experiência e a complexidade do pensamento dos entrevistados oferece ao documentário uma densidade de conteúdo impressionante, que poderia se tornar confusa ou maçante, não fosse a outra grande qualidade do filme: o roteiro e a organização dos temas, aliada à montagem de Ícaro Sousa (também estreante em longas) faz com que o espectador navegue de um tema para o outro de forma relativamente fluida e natural. Partindo dos grandes desafios surgidos ainda no primeiro ano de Governo Lula - como a criação do Grupo dos Amigos da Venezuela - e chegando a discussões mais teóricas, a necessidade ou não de abrir Embaixadas em países considerados por muitos como menos importantes, o documentário arrisca ao tratar de tantos assuntos em pouco menos de duas horas.

A ousadia foi grande, já que o documentário trata de temas tão amplos e diversos como a partidarização (ou não) da política externa no Governo Lula, até a discussões sobre  participação do Brasil na Declaração de Teerã  - que teria regulado a questão do urânio iraniano, não tivesse sido rifada pelos Estados Unidos – episódio que Matias Spektor chama de "pico da ambição" da diplomacia "ativa e altiva" pregada por Celso Amorim. Mas essa ousadia resultou em um documento conciso e relativamente equilibrado (novamente, pelo balanço entre as opiniões expostas) sobre período eleito como objeto.


É claro que há imperfeições: o formato de entrevistas seguidas, mesmo que editado de forma ágil, acaba podendo cansar o espectador. Para tentar compensar esse desafio, os realizadores optaram por inserir animações que reúnem manchetes de jornais da época, bem como imagens de arquivo. Há uma tentativa de replicar a lógica da linguagem da internet, por meio de inserções de tweets, uso de template visual que remete ao youtube e passagens de cenas que emulam a movimentação de telas de tablets. As idéias são boas, mas nem sempre alcançam o efeito desejado na tela grande do cinema. Ademais, há algumas irregularidades no tratamento do som.

Se a parte técnica tem suas falhas, o conteúdo surpreende. Para o público em geral, é uma oportunidade de aprender muito sobre a diplomacia brasileira em um período de grande fôlego (se bem usado ou não, o espectador decidirá). Para os mais interessados e ligados ao tema, será um pouco inevitável sentir a nostalgia de um passado bastante recente, mas que parece distante, em que havia uma política externa, qualquer que fosse, no País. Diplomatas, estudantes e professores de relações internacionais e candidatos ao Rio Branco ganham, com a "Era dos Gigantes", um documento incontornável.

por D.G.Ducci


Comentários

  1. O documentário encontra-se disponível em alguma plataforma?

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    Respostas
    1. Ainda não, Ministro. Mas será exibido no 49o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

      http://www.festbrasilia.com.br/mostra/era-dos-gigantes/78

      Excluir
  2. Como eu posso comprar, alugar ou baixar esse documentário?

    ResponderExcluir

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