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Ai que horror! Pontypoll

Cinco melhores filmes de zumbi para quem cansou dos clichês de zumbi - Parte 4


Provavelmente alguns dos que estão acompanhando esta lista dos cinco melhores mortos-vivos diferentões já tenham ido para o túmulo, mas como todo bom zumbi, a lista está de volta. Agora saímos dos primórdios do cinema e vamos para o interior do Canadá.


2- Pontypoll 


Título: Pontypool
Direção: Bruce McDonald
Roteiro: Tony Burgess baseado em seu próprio livro “Pontypool Changes Everything”
Elenco: Stephen McHattie, Lisa Houle, Georgina Reilly
Produção: Ponty Up Pictures, Shadow Shows
Distribuição: IFC Films
Ano: 2008
País: Canadá

Sinopse: Uma equipe de rádio de uma pequena cidade canadense começa o dia fazendo a cobertura de um surto de violência inexplicável que começa a se propagar entre seus habitantes. E mais tarde descobrem que a violência se contagia por meio das palavras.


Nota Razão de Aspecto
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Infelizmente o próprio fato de "Pontypool" estar nesta lista já é um leve spoiler sobre o filme, pois a primeira grande surpresa é exatamente que este filme se trata de zumbis. O filme se passa dentro do estúdio de uma rádio de notícias de uma cidade interiorana canadense, e começa em um lento porém angustiante crescendo de tensão, a medida em que os funcionários da rádio vão recebendo as notícias de uma onda de violência em sua cidade.

As informações vão chegando tanto aos personagens quanto ao espectador quase exclusivamente por falas, descrições. Os principais eventos do primeiro ato são contados por pessoas que não aparecem na tela. Desta forma, o tema central do filme vai se inserindo de uma forma muito orgânica e funcional.

O que faz deste filme algo diferente de todos os outros filmes de zumbi é que a epidemia que transforma as pessoas em algo similar a um morto-vivo é a própria linguagem. Por algum motivo não explicado, algumas palavras passaram a carregar em si um vírus, e quando elas são faladas, ouvidas e compreendidas, o ouvinte se transforma completamente. 

Não pense neste vírus como uma metáfora, o filme não é alegórico. A proposta é literal: quando uma pessoa ouve uma palavra contaminada, ela entra em um estado de afasia, passando a repetir mecanicamente a palavra-vírus, entrando em um vazio espiritual que por fim se transforma em um arroubo de violência, canibalismo, etc.

A idéia pode parecer (e é) estranha e inverossímil, mas ao colocar o espectador na pele de funcionários de uma estação de rádio, cujo todo poder e função é a transmissão de palavras, e ao mesmo tempo tendo que evitar um número cada vez maior de palavras e expressões, o nível de tensão e a sensação de vulnerabilidade, claustrofobia e paranóia aumenta.

A medida que o cerco vai se fechando ao redor da estação, tanto física (com a horda de zumbis) quanto linguisticamente (com cada vez mais palavras se tornando suspeitas), mais queremos nos trancafiar e deixar de comunicar. Mas ao mesmo tempo, mais e mais a epidemia se espalha, e mais e mais a transmissão de rádio se torna necessária para salvar vidas.

A química entre os dois atores principais, Stephen McHattie (de 300 e Watchmen) e Lisa Houle (de Ejecta) está perfeita. O cinismo e misantropia de Grant Mazzy, o narrador da rádio interpretado por McHattie, e a preocupação ética e empatia de Sydney Briar, a produtora do programa interpretada por Houle, gera um conflito que vai aos poucos se transformando em nada diante do tamanho do problema externo. Os personagens claramente avançam, sendo influenciados fortemente pelos eventos externos.


Bruce McDonald (de Os fragmentos de Tracey) conduz o filme com uma precisão visual e narrativa invejável, centrando o visual do filme no ambiente claustrofóbico, e não no esparramar de sangue ou na violência. Ela está presente, mas em doses leves, e sempre bem inseridas. Mesmo assim o filme, devido sua densidade emocional, é muito mais intenso e tenso que 99% dos filmes de zumbi que estamos acostumados.

Um filme de zumbi que nos leva a questionar o significado da linguagem, o quanto somos dependentes dela, e o quanto a linguagem existe independente de nós. Nós usamos as palavras para nos comunicar ou elas que usam nossas mentes para continuar se propagando?


Por fim, um aviso: permaneça grudado na tela, e com ouvidos atentos, depois dos créditos. Não é apenas uma cena divertida após os créditos, mas parte essencial do filme.

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