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NETFLIXING: SING STREET: MÚSICA E SONHO (2016) - CRÍTICA


Junte-se a uma banda de rock em um belíssimo filme disponível no Netflix


Gênero: Drama Musical
Direção: John Carney
Elenco: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Mark McKenna, Maria Doyle Kennedy, Aidan Gillen, Ian Kenny, Ben Carolan, Percy Chamburuka, Karl Rice, Conor Hamilton, Kelly Thornton 
Roteiro: John Carney
Produção: Anthony Bregman, John Carney, Martina Niland
Fotografia: Yaron Orbach
Montagem: Andrew Marcus , Julian Ulrichs
Trilha sonora: John Carney, Gary Clark, Ken Papenfus, Carl Papenfus, Graham Henderson, Zamo Riffman, Adam Levine Glen Hansard
Duração: 105 min
Ano: 2016
País: Ireland, Estados Unidos, United Kingdom
Disponível no NOW e no Netflix.

Sinopse: Em 1985, em Dublin, o jovem Conor monta uma banda para tentar impressionar a garota que gosta.





Nota do Razão de Aspecto:
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Existem cidades que, por razões que apenas as Musas compreendem, emanam uma aura artística, literária e musical. Quem possui uma sensibilidade criativa, quando em Dublin, parece estar, todo o tempo, a duas cervejas de criar uma obra-prima, embalado pela profunda musicalidade da cultura local. Não é à toa que a República da Irlanda tem um instrumento – a harpa – como um dos símbolos nacionais. Seja na sinfonia de alusões musicais composta por James Joyce em seu “Finnegans Wake” (nome emprestado de uma balada tradicional) ou nas letras políticas de um U2 no auge, a cidade parece estar pronta para oferecer misteriosas fontes de inspiração.


No cinema, pelo menos por duas vezes o casamento da alma dublinense com a criação musical resultou em filmes inesquecíveis. Em 1991, Alan Parker dirigiu The Commitments: loucos pela fama, a história de um jovem empresário que deseja montar uma improvável banda de soul na “capital mais negra da Europa”. O filme – em especial sua trilha Sonora - fez tanto sucesso que a banda fictícia chegou a fazer turnês na vida real.  Já em 2007, foi a vez do diretor John Carney presentear o mundo com Apenas uma vez, uma poética história do amor entre um músico de rua e uma imigrante tcheca vendedora de flores, que seria adaptada para os palcos anos depois, e incluir um CD nas trilhas sonoras obrigatórias para quem gosta de musicais.

Em 2016, o mesmo Carney traz Sing Street, filme que estreou no festival de Sundance em janeiro e estará concorrendo a Melhor Filme (Comédia ou Musical) no Globo de Ouro 2017. Escrito pelo próprio John Carney, o roteiro nos leva a Dublin de meados da década de 1980, em que o desemprego e a falta de esperança deixam jovens perdidos sobre os rumos da sua vida.


Nesse cenário, o jovem e criativo Conor (Ferdia Walsh-Peelo, estreando) é obrigado a se mudar de escola, para que seus pais (Maria Doyle Kennedy e Aiden Gillen, coadjuvantes de altíssimo luxo), eternamente em conflito, possam economizar. De um colégio jesuíta, o tímido Conor vai para Synge Street, colégio público com reputação de dura disciplina. Na saída da escola, ele vê Raphina (Lucy Boynton), uma garota “que não fala com ninguém”, e que se diz modelo, por quem se encanta instantaneamente. Numa época em que os video clips cativam todos os jovens, ele usa a gravação de um video para sua banda como desculpa para aproximar-se da musa. O problema: ele não tem uma banda!


A partir daí o que se vê é uma deliciosa história sobre formação – musical e de caráter, sobre criatividade em tempos e ambientes áridos, e sobre a intensidade, ingenuidade e decepções dos primeiros passos da vida artística e da vida amorosa. A trama alterna entre o crescimento pessoal de Conor, incluindo sua relação com Raphina, e as canções inspiradas por esses elementos.


Tudo isso vem embalado por constantes referências ao pós-punk, new wave e new romantic da década de 1980. As influências da jovem banda passam por Duran Duran, The Clash, Smiths e Spandau Ballet, por exemplo. E esses elementos são incorporados não apenas ao som de Sing Street, e de suas canções inéditas com a sonoridade deliciosamente da época, mas também ao figurino. É quase impossível não bater palmas quando, após ser apresentado ao álbum “The head on the door”, da banda Cure, Conor adota um visual mais dark e à moda de Robert Smith. 

Nas mãos de um diretor ou de produtores menos sensíveis (e menos estadunidenses), o filme poderia escorregar para um High School Music cospobre. Mas em mais nesse excelente filme passado em Dublin sobre a música como motivação, compreensão pessoal e motor potencial de superação e de mudanças, as notas são todas muito altas. Para quem tem, já teve ou sonhou ter uma banda de rock, é filme obrigatório. 



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