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Não Devore Meu Coração (2016)- CRÍTICA


Cauã Reymond é a estrela do novo filme de Felipe Bragança.


Leia a Ficha técnica aqui




Nota do Razão de Aspecto:


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O novo filme de Felipe Bragança é uma fábula sobre um Brasil que sequer os Brasileiros conhecem. Ao tratar, literal e metaforicamente, das consequências da Guerra do Paraguai nas relações sociais da fronteira entre  os dois países, Não Devore Meu Coração é, ao mesmo tempo, a denúncia de um conflito e um acerto de contas com o passado. 

Há duas narrativas paralelas: a história de amor impossível entre os adolescentes João Carlos e Basano, “a Rainha do rio Apa”, e a história do irmão mais velho de João , Fernando, o Inimigo, interpretado por Cauã Reymond, envolvido em uma série de crimes contra índios guarani.  O cruzamento entre a realidade crua de Fernando e a realidade imaginada por Joca resulta em uma narrativa fabulesca e quase mágica, cuja sensibilidade transborda da tela. 




Grande parte dessa sensibilidade decorre da interpretação da jovem Adeli Benitez, que transmite, ao mesmo tempo, a inocência e e o amadurecimento da personagem. Cauã Reymond entrega uma interpretação forte de um jovem perturbado e perdido naquele contexto, que atua apenas como um peão  no grande tabuleiro dos conflitos por terra na fronteira. O jovem Joca, por sua vez, é o esteio da realidade imaginada, em busca do amor impossível em meio ao conflito entre as famílias, que remonta a questões históricas seculares das relação entre os países. Alem disso, cabe destaque a um grande conjunto de não atores que de deram ao longa uma verossimilhança crua.




O paralelismo simbólico acaba por ser a base de Não Devore Meu Coração: Guerra do Paraguai, no século XIX, e conflitos de gangues, em 2016, invasão militar, no século XIX, e grilagem de terras, atualmente, e, por fim, o paralelismo entre os irmãos: Fernando suas motos, e Joca com suas bicicletas - dos mais complexos aos mais singelos.

A trilha sonora combina um estilo anos 80, com teclados e sintetizadores, com trilha orquestra. Certamente, foi uma coincidência, já que não existe nenhuma relação entre as histórias, mas algumas passagens que combinam Joca e seus amigos com essa trilha sonora me remeteram diretamente a Stranger Things. O importante é que a trilha se destaca com qualidade.

A Guerra do Paraguai como pano de fundo da narrativa possibilita múltiplas interpretações, em especial em relação à a identidade daquelas pessoas: brasileiro, paraguaio, guarani ou latino-americano. Personagens em conflito interior e exterior, que personificam o entre-lugar em que se encontram nossas civilizações miscigenadas.

Não Devore Meu Coração é um exercício de gênero incomum no cinema brasileiro, tão ousado quanto sucedido. Com um tema sensível e uma narrativa complexa, o filme tem uma montagem que reforça o paralelismo entre a realidade e o realismo fantásticos dos adolescentes, resultando em um filme agradável e comovente.

O Brasil foi muito bem representado no Festival de Sundance 2017.






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